sexta-feira, 14 de setembro de 2018


               


“TODO DIA A MESMA NOITE” – Autora Daniela Arbex, Editora Intrínseca, 240 pgs.

            Venho hoje falar sobre o livro “Todo dia a mesma noite”, da autora Daniela Arbex, publicado pela Editora Intrínseca. Em uma narrativa avassaladora, com uma técnica impecável, delicada e principalmente com uma sensibilidade emocionante, a autora nos transporta para o cenário apocalíptico da tragédia ocorrida na Boate Kiss, na cidade gaúcha de Santa Maria no fatídico dia 27 de janeiro de 2013.
            Desde a primeira linha, a tensão é instalada e o sentimento de angústia e impotência nos atinge como um raio. Toda a narrativa é construída através dos relatos de sobreviventes, dos profissionais de saúde que agiram naquela situação de verdadeira guerra, de pais e amigos das vítimas e assim podemos conhecer os anseios daqueles jovens que estavam lá em uma noite de festa, os seus planos de vida que nunca chegariam a realizar, os filhos que deixaram ou que nunca chegariam a conhecer e tendo em mente que não são meros personagens fictícios, que aquelas eternas “crianças” (como os pais se referem inúmeras vezes) existiram e deixaram um vazio enorme na vida dos que ficaram, é desolador. Segue um dos trechos mais marcantes, na minha opinião:

“Müller seguiu o colega e foi tomado pelo espanto ao observar a entrada dos toaletes. Para se proteger da fumaça ou achar a saída, que ficara às escuras durante o incêndio, muitos jovens acabaram encurralados nos banheiros, único local onde uma luz de emergência permaneceu acesa. Muitos foram pisoteados. Todos morreram asfixiados.
Diante da pilha de corpos, o sargento sentiu as forças de seus braços esvaírem. Percebeu que homens e mulheres haviam morrido entrelaçados uns aos outros, caídos entre as portas arrancadas dos sanitários individuais na tentativa alucinada de buscar ar na janela do basculante – que também estava lacrada.
Nenhum treinamento o havia preparado para lidar com a dor que sentiu no momento em que se viu tomado pelo mais humano dos sentimentos: a compaixão.
- Nós não salvamos ninguém!- repetia, em choque. – Não salvamos ninguém.”

A dor é palpável a cada página. Enxergar através de cada cadáver uma história de vida é dilacerante. A revolta se instala quando nos damos conta de que aquela tragédia, aquele cenário dantesco, onde 242 vidas foram ceifadas, poderia ter sido evitada com o mínimo de obediência às diretrizes básicas de segurança e se a ganância e o oportunismo não tivessem falado mais alto. Detalhes que foram se apagando da memória com o passar dos anos, são trazidos à superfície e eternizados na obra. A impunidade, o choque, a dor dos pais que acabaram se perdendo de si mesmos, o sentimento de culpa arraigado no coração daqueles que não puderam salvar alguém que amavam.
            Assim como eu, certamente muitos já haviam se esquecido dos detalhes daquele trágico dia, da negligência dos responsáveis, da incompetência dos órgãos fiscalizadores, da ganância que preponderou.  A realidade é chocante demais, é custoso crer que essa tragédia humana sem precedentes aconteceu em nosso País e isso incomoda muito. Além disso, como podemos constatar no decorrer da narrativa, em momentos assim o ser humano é capaz de mostrar seu melhor, através da empatia, tanto quanto seu pior. A autora com maestria nos traz um fluxo de narrativa frenético, que vai nos causando urgência e uma identificação com o desespero sentido por aqueles que esperavam por notícias.    
            A importância de documentar e transmitir de uma maneira tão “bela” e cuidadosa a história não contada da boate Kiss é imensurável, é imprescindível que não nos esqueçamos daquelas vidas tão jovens, nem de toda a dor daqueles que ficaram, mas que de certa forma também deixaram de viver, cuja dor podemos apenas conjecturar. Em uma escrita clara, objetiva, “bruta” e visceral, essas vidas foram eternizadas. Espero que gostem da indicação! Até breve! BEIJOS! 

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